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O SUS paga R$ 13,90 por um canal de três raízes. Esse é o piso do país

Ninguém publica quanto se cobra por um procedimento odontológico no Brasil, e há razões legais para isso. Mas três atores publicam números: o Ministério da Saúde, o mercado de planos e as franquias. Juntando os três, dá para enxergar o piso, o meio e o teto — desde que cada um seja lido com a ressalva certa.

Publicado em ·8 min·Equipe Candea
Resposta direta

Não existe tabela pública de preço particular em odontologia, e o código de ética proíbe o dentista de anunciar preço. O que é público: o SUS paga R$ 13,90 por um canal de três ou mais raízes e R$ 2,48 por raspagem por sextante; as operadoras de planos gastaram R$ 13,43 por beneficiário por mês com assistência em 2025; e as franquias divulgam faturamento de R$ 60 mil a R$ 150 mil por unidade.

  • 27 dos 46 procedimentos odontológicos da tabela do SUS têm valor unitário zero — são custeados por repasse fixo.
  • No mercado de planos, a receita cresceu 8% ao ano entre 2019 e 2024 enquanto a despesa assistencial cresceu 1%.
  • Os números de franquia são material de venda de franquia, e variam entre portais para a mesma marca.
  • Faturar R$ 150 mil por mês exige de 4 a 9 pares de cadeira e dentista, estrutura que 6,3% dos consultórios têm.
Cartão comparando o que cada pagador entrega ao dentista: R$ 13,90 pelo canal na tabela do SUS contra R$ 13,43 gastos por beneficiário ao mês pelas operadoras de plano
Os dois únicos números de remuneração odontológica que são efetivamente públicos no Brasil, lado a lado Cartão editorial da Candea sobre a tabela SIGTAP e dados do mercado de planos

Procurar quanto se cobra por um procedimento odontológico no Brasil dá em nada — e não é acaso. O código de ética odontológico proíbe o dentista de anunciar preço, e tabelas de referência de entidades esbarram em questão concorrencial. O resultado é um mercado onde quase ninguém publica número, e onde o profissional se compara com o que ouve no corredor.

Mas três atores publicam: o Ministério da Saúde, o mercado de planos e as franquias. Cada um por um motivo diferente, cada um com um viés diferente. Juntando os três, aparece um piso, um meio e um teto — que é exatamente o que falta para alguém se situar.

O piso: a tabela oficial do SUS

O SIGTAP é a tabela do Ministério da Saúde com o valor de cada procedimento pago por produção. Na competência de agosto de 2026, os procedimentos odontológicos com valor unitário são estes:

O que a tabela do SUS paga por procedimento odontológicoValores unitários vigentes na competência de agosto de 2026, somando serviço profissional, ambulatorial e hospitalar.
  • Aparelho ortodôntico fixoR$ 67,00instalação
  • Manutenção de aparelhoR$ 34,00
  • Canal, 3 ou mais raízesR$ 13,90
  • Canal birradicularR$ 11,42
  • Canal unirradicularR$ 8,82
  • Raspagem por sextanteR$ 2,48
  • Conserto de próteseR$ 2,32

SIGTAP — Tabela Unificada do SUS, competência 08/2026, publicada pelo DATASUS em 14/08/2026.

Ainda assim, o número é útil como âncora inferior: quando alguém diz que um canal “vale” determinado valor, esse é o piso institucional do país para o mesmo ato clínico.

O meio: a economia real do convênio

As operadoras não publicam o que pagam ao credenciado, mas publicam o que gastam. Numa análise atuarial da consultoria Milliman assinada por Larissa Martins e João Longo, publicada em novembro de 2025, o mercado de planos exclusivamente odontológicos gastou, em 2025, R$ 13,43 por beneficiário por mês em despesa assistencial.

Esse é o valor médio que sai da operadora para pagar toda a odontologia consumida por um beneficiário no mês — consultas, prevenção, restaurações, urgências. É de lá que sai a sua remuneração como credenciado.

O mercado de planos odontológicos, pelos números publicados
IndicadorValorPeríodo
Beneficiários em planos exclusivamente odontológicos35,8 milhõesmarço de 2026
Receita de contraprestações do segmentocerca de R$ 20 bilhõesacumulado de 2024
Despesa assistencial por beneficiárioR$ 13,43 por mês2025
Crescimento médio anual da receita8%2019 a 2024
Crescimento médio anual da despesa assistencial1%2019 a 2024

Isso não torna convênio um mau negócio: ele resolve o problema de agenda vazia, que é o que trava a maioria dos consultórios. Torna, sim, indispensável saber quanto da sua capacidade você está entregando a esse preço. A proporção de consultórios credenciados varia de 15% a 78% conforme o estado — o mapa está em quantos dentistas tem no Brasil e onde eles estão.

O teto divulgado: o que as franquias publicam

Franquia é o único ator do setor que precisa divulgar faturamento — é assim que ela atrai franqueado. São os únicos números de receita por unidade que circulam abertamente na odontologia brasileira:

Números que a maior rede odontológica do país divulga para atrair franqueados
Item divulgadoFaixa publicada
Investimento inicialR$ 189 mil a R$ 307 mil
Faturamento médio mensalR$ 60 mil a R$ 150 mil
Lucratividade declarada20% a 25%
Prazo de retorno18 a 24 meses
Royalties7% sobre o faturamento bruto
Fundo de propaganda2% sobre o faturamento bruto

Reconciliando: quanta estrutura R$ 150 mil por mês exige

Aqui é onde os números divulgados encontram a realidade medida. Medimos a estrutura de 98.315 consultórios privados brasileiros no cadastro nacional de saúde. Cruzando com a conta de agenda — 20 dias de atendimento, 6 horas clínicas por dia, 70% de ocupação —, faturar R$ 150 mil por mês exige:

Postos de atendimento necessários para R$ 150 mil por mês, por recebimento médio
Recebimento por atendimentoAtendimentos realizados no mêsPares de cadeira e dentista
R$ 200750cerca de 9
R$ 250600cerca de 7
R$ 300500cerca de 6
R$ 400375cerca de 5
R$ 500300cerca de 4

Ou seja: o número da franquia é real e é compatível com a conta — desde que se entenda que ele descreve uma operação de quatro a nove pares de cadeira e profissional. Na medição do país, consultórios com quatro cadeiras ou mais são 6,3% do total. O faturamento divulgado não é mentira; é a descrição de um modelo que quase ninguém opera. A distribuição completa está em quanto fatura uma clínica odontológica.

Onde o teto é maior, e como se diferenciar

Os três blocos acima dão a régua. O que fazer com ela depende de qual restrição pesa mais no seu caso:

Quatro caminhos, com a restrição de cada um

  1. 1

    Subir o recebimento por atendimento

    É a alavanca mais forte da tabela acima: a R$ 500 você precisa de menos da metade da estrutura que precisaria a R$ 200. Exige mix de procedimento de maior complexidade e um motivo claro para o paciente pagar mais — não exige mais cadeira.
  2. 2

    Subir a ocupação antes de subir a estrutura

    Comprar cadeira com agenda a 60% é comprar capacidade ociosa mais cara. Ocupação sobe com procura e com presença: é o terreno de captação de pacientes e de redução de faltas.
  3. 3

    Escolher a proporção de convênio conscientemente

    Convênio enche agenda a um valor que a operadora define. Numa região de 70% de penetração, ficar fora exige posicionamento que sustente o preço; numa de 15%, o convênio pode ser o que traz volume.
  4. 4

    Escalar em pares, nunca em cadeira solta

    Cada salto real de faturamento é um par de cadeira e profissional — e traz junto uma decisão tributária, porque quase toda clínica com estrutura vira pessoa jurídica. Veja impostos da clínica com CNPJ antes de crescer.

Sobre diferenciação por nicho, vale o alerta que os dados sustentam: especialidade concorrida não é sinônimo de especialidade rentável. O conselho registra 34.211 especialistas em ortodontia contra 6.540 em harmonização orofacial — o que muda quantos vizinhos oferecem o mesmo que você, e portanto o quanto o preço aguenta.

O que o próprio conselho da categoria diz

Vale registrar que a pressão sobre preço não é leitura nossa. Em 3 de outubro de 2022, o Conselho Federal de Odontologia protocolou uma ação civil pública pedindo a suspensão de autorizações de novos cursos de graduação em odontologia e a paralisação de novas turmas em cursos já autorizados. O então presidente, Juliano do Vale, justificou a medida pela qualidade do ensino e pela necessidade de “manter a sustentabilidade da profissão a médio e longo prazo”. O conselho vinha se manifestando ao Ministério da Educação nesse sentido desde 2017.

Quando o órgão que representa a categoria vai à Justiça para reduzir a formação de novos profissionais, o dado de densidade deixa de ser estatística e vira política pública em disputa.

O que não dá para afirmar com essas fontes

  • Nenhum destes números é preço particular. Não existe base pública de preço praticado em consultório no Brasil, e esta página não sugere valores — sugerir preço seria problema ético e concorrencial.
  • O valor do SUS não é o custo do procedimento nem a remuneração do profissional: é repasse de produção ao estabelecimento.
  • A despesa por beneficiário do convênio é média de mercado, não o que uma operadora específica paga a um credenciado específico por um procedimento específico.
  • Os números de franquia são divulgação comercial, verificados em duas fontes que divergem entre si na mesma data.
  • A conta de reconciliação é um cenário, com todas as entradas declaradas. Ela mostra ordem de grandeza e restrição estrutural, não previsão.

Para o outro lado da conta — quanto sobra de cada real faturado —, veja impostos do dentista pessoa física, e para a comparação internacional, quanto ganha um dentista no Brasil e no mundo.

Perguntas frequentes

Quanto o SUS paga por um procedimento odontológico?

Na tabela SIGTAP, competência de agosto de 2026, um tratamento endodôntico de dente permanente com três ou mais raízes é remunerado a R$ 13,90, o birradicular a R$ 11,42 e o unirradicular a R$ 8,82. Raspagem corono-radicular por sextante vale R$ 2,48 e a instalação de aparelho ortodôntico fixo, R$ 67,00. Importante: 27 dos 46 procedimentos odontológicos da tabela têm valor zero porque são custeados por repasse fixo à atenção básica, não por produção.

Quanto o convênio paga ao dentista credenciado?

As operadoras não publicam suas tabelas de credenciado. O que é público é a despesa: segundo análise atuarial da Milliman publicada em novembro de 2025, o mercado de planos exclusivamente odontológicos gastou R$ 13,43 por beneficiário por mês com assistência em 2025. Entre 2019 e 2024, a receita das operadoras cresceu 8% ao ano enquanto a despesa assistencial cresceu 1% ao ano.

Quanto fatura uma franquia odontológica?

A maior rede do país divulga faturamento médio mensal de R$ 60 mil a R$ 150 mil por unidade, com investimento inicial de R$ 189 mil a R$ 307 mil, lucratividade declarada de 20% a 25% e retorno em 18 a 24 meses. São números de divulgação comercial, não demonstrativo auditado — e portais diferentes publicam faixas distintas para a mesma rede na mesma data.

Por que não existe tabela de preços em odontologia?

O código de ética odontológico proíbe o profissional de anunciar preço, e tabelas de valores referenciais publicadas por entidades de classe esbarram em questões concorrenciais. Por isso o preço particular praticado no Brasil não é uma informação pública, e qualquer valor que circule vem de amostra informal ou de material comercial.

Preciso de quantas cadeiras para faturar R$ 150 mil por mês?

Depende do recebimento médio por atendimento. Com 20 dias de atendimento, 6 horas clínicas por dia e 70% de ocupação, seriam necessários cerca de 9 pares de cadeira e dentista a R$ 200 por atendimento, 6 pares a R$ 300 e 4 pares a R$ 500. Consultórios com quatro cadeiras ou mais representam 6,3% dos 98.315 consultórios privados medidos no cadastro nacional de saúde.

A especialidade mais concorrida é a mais rentável?

Não há dado público de receita por especialidade no Brasil, então não é possível afirmar isso. O que é público é a oferta: o conselho registra 34.211 especialistas em ortodontia e 6.540 em harmonização orofacial. Muita oferta local tende a pressionar preço para baixo, o que é diferente de dizer que a especialidade paga mal.

Afirmações, fontes e limites

  • Valores unitários dos procedimentos odontológicos custeados por produção no SUS, competência de agosto de 2026, e a quantidade de procedimentos com valor zero na tabela.

    SIGTAP — Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS

    Brasil · conferida em 18/08/2026 · vigente. Limite: Tabela baixada do repositório oficial de transferência do DATASUS (TabelaUnificada_202608, publicada em 14/08/2026). É atualizada mensalmente por competência, e valor zero não significa procedimento não ofertado: significa custeio por transferência fixa em vez de pagamento por produção.

  • Despesa assistencial média por beneficiário por mês em 2025 e o descolamento entre crescimento de receita e de despesa entre 2019 e 2024.

    Milliman — Mercado de planos exclusivamente odontológicos

    Brasil · conferida em 18/08/2026 · vigente. Limite: Análise atuarial de consultoria privada assinada por Larissa Martins e João Longo, publicada em 21/11/2025 sobre dados até o terceiro trimestre de 2025; é média de mercado e não a remuneração de nenhum credenciado específico.

  • Faixas divulgadas de investimento inicial, faturamento médio mensal, lucratividade, prazo de retorno e royalties da rede.

    OdontoCompany — números divulgados de franquia

    Brasil · conferida em 18/08/2026 · contexto. Limite: São números de divulgação comercial para atrair franqueado, não demonstrativo auditado; portais diferentes publicam faixas diferentes para a mesma rede.

  • Ação civil pública protocolada pelo conselho em 3 de outubro de 2022 pedindo a suspensão de autorizações de novos cursos, e a posição do conselho sobre sustentabilidade da profissão.

    CFO — ação judicial pela suspensão de novos cursos de odontologia

    Brasil · conferida em 18/08/2026 · vigente. Limite: É a posição institucional do conselho, não uma medição de mercado, e a ação é de 2022.

  • Distribuição de cadeiras e de cirurgiões-dentistas por consultório privado, usada para reconciliar os faturamentos divulgados com a estrutura que eles exigem.

    CNES/DATASUS — base de dados de estabelecimentos de saúde

    Brasil · conferida em 18/08/2026 · vigente. Limite: Cadastro obrigatório com fiscalização atrelada a faturamento SUS e convênio; é piso, não censo.

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